Na atual “sociedade da pressa”, a eficiência e a produtividade muitas vezes se sobrepõem ao bem-estar humano. A realidade é que a maioria de nós passa mais tempo da vida trabalhando do que “degustando” a existência. Isso não é necessariamente uma questão de certo ou errado. Apenas, é a realidade em que estamos inseridos.
Nesse caminho, sofremos uma pressão interna constante por executar. Criamos listas intermináveis de tarefas que precisam ser cumpridas com velocidade. Acreditamos que precisamos produzir a todo custo e tendemos a negligenciar o descanso. Fazemos tudo isso em busca de estabilidade financeira: uma casa, um carro, frequentar bons restaurantes, fazer viagens interessantes, entre outras metas do ter. Ou seja, sacrificamos o presente para, em tese, ter qualidade de vida no futuro. Mas será que temos conseguido equilibrar essa balança ou estamos banalizando o burnout?
Os números são alarmantes. Em 2025, o índice de burnout em Portugal foi elevado, com 61% dos portugueses sentindo-se esgotados ou em risco, de acordo com o STADA Health Report 2025. No Brasil, o cenário é igualmente crítico: 86% dos profissionais relatam sintomas da síndrome, segundo a Wellhub, acompanhados por um crescimento de 14,5% nas ações trabalhistas por burnout.
Apesar das estatísticas, vivemos um paradoxo social: as pessoas demonstram sensibilidade quando alguém é hospitalizado com pneumonia, pedras nos rins ou qualquer outra doença física aparente. No entanto, ainda há uma tendência a julgar como “frescura”, “fraqueza” ou “preguiça” quando um profissional é afastado com diagnóstico de burnout.
É contraditório, não acha? Vou explicar por que considero essa percepção no mínimo insana.
O burnout (ou Síndrome do Esgotamento Profissional) é um fenômeno ocupacional que consiste em um estado de exaustão física, emocional e mental causado por estresse prolongado e excessivo no trabalho. É caracterizado por um “vazio”, falta de energia e incapacidade de lidar com as demandas da função.
Será que alguém escolheria sentir-se assim? Entre o equilíbrio e o esgotamento, a escolha óbvia seria o bem-estar. Afinal, como costumo dizer pelos quatro cantos: “só quero PAZ”.
O burnout e outras doenças que prejudicam a saúde mental, como a ansiedade e o stress, por exemplo, não afetam exclusivamente o funcionamento psicológico, eles envolvem alterações biológicas reais e mensuráveis. Quando vivenciamos esse fenômeno, costumo explicar nas consultas de psicologia que o nosso cérebro “atropela” o funcionamento interno e desequilibra todo o organismo:
- Disfunções hormonais e neuroquímicas: o excesso de cortisol (hormônio do estresse) pode danificar tecidos e aumentar a pressão arterial. Com o tempo, o corpo pode sofrer uma falta de “combustível” hormonal. A queda na serotonina (neurotransmissor crucial para o bem-estar) impacta o humor e o sono, enquanto o desajuste na noradrenalina (hormônio) mantém o corpo em estado de alerta constante, gerando irritabilidade e ansiedade.
- Alterações estruturais no cérebro: estudos mostram que a amígdala (centro do medo) pode se tornar hiperativa, enquanto o hipocampo (memória) e o córtex pré-frontal (tomada de decisão e foco) podem sofrer reduções funcionais. Isso explica os lapsos de memória e a dificuldade de concentração.
- Percepção de ameaça: as emoções ficam tão alteradas que pequenos problemas são percebidos de forma exagerada. É como se o cérebro visse um “leão” onde existe apenas um “cachorrinho”.
- Inflamação sistêmica: O estresse crônico eleva a inflamação no corpo, o que explica a maior sensibilidade a dores musculares, problemas gastrointestinais e baixa imunidade.
Compreender que o burnout tem uma base bioquímica ajuda a derrubar o estigma. Não é falta de força de vontade. É também um mau funcionamento fisiológico do sistema nervoso em resposta ao estresse. Por isso, o tratamento eficaz exige um olhar multidisciplinar: terapia, ajuste de rotina, exercícios físicos e, em muitos casos, suporte medicamentoso para recuperar o equilíbrio químico.
Não deixe que o burnout seja o seu “normal”. Ao menor sinal de alerta, procure um/a psicólogo/a. Para colhermos saúde, precisamos primeiro plantar conhecimento.


